ERIC BEATZ

Aclor — nascida Anna Carolina, mas apresentada ao mundo artístico simplesmente como “Aclor” — é filha da Baixada Fluminense, criada em Morro Agudo e moldada pelas ruas, pelos laços comunitários e pela força transformadora do hip-hop. Multiartista, ela se define como vento: precisa se mover, aprender, voltar, atravessar caminhos. Canta, escreve poesia, produz cultura, trabalha com audiovisual e comunica com espontaneidade uma sensibilidade profunda, forjada tanto nas dores quanto nos afetos de seu território.

Criada em Nova Iguaçu, sempre entre Morro Agudo e eventuais idas ao Cabuçu, Aclor cresceu tímida, muitas vezes isolada, enfrentando bullying e dificuldades de convivência escolar. A infância teve momentos marcantes: escolas onde não se sentia pertencente e, por outro lado, a passagem pela Escola Zumbi, espaço de referências negras, brincadeiras e acolhimento que deixariam nela a memória de um cuidado essencial. Essa relação ambígua com a educação formal fez da rua sua principal fonte de saber, seguida da internet e da família — e só por último da escola.

Seu encontro com o hip-hop foi tardio, mas decisivo. Depois de um período de tristeza profunda, tentativas de encontrar acolhimento na igreja e a necessidade urgente de “existir de outro jeito”, ela ouviu de um amigo a palavra que mudaria sua trajetória: “sarau”. Sem entender exatamente o que era, lançou o termo ao universo como pedido. Meses depois, o destino respondeu com a abertura das inscrições do Pré-Vestibular Enraizados — projeto onde ela entrou sem saber exatamente por quê, mas que se tornaria divisor de águas. No mesmo dia, viveu sua primeira experiência no Sarau Poetas Compulsivos. E dali não saiu mais.

Seu primeiro ano no Enraizados, em 2022, foi de transformação profunda. Ela terminou o Ensino Médio, prestou o ENEM, criou laços afetivos e artísticos, encontrou acolhimento e reconheceu em si algo que sempre esteve lá: a artista. Foi no microfone aberto do último sarau daquele ano que cantou sua primeira música autoral e viu o público se emocionar. “Acho que eu não me descobri artista — eu me aceitei artista”, ela diz.

Musicalmente, Aclor se identifica sobretudo como cantora e MC, com forte relação com a poesia romântica, mas sempre atravessada por vivências políticas: relações de afeto, limites, autonomia, trabalho, respeito e resistência. A política aparece como corpo, cotidiano e sobrevivência. Amar, para ela, também é político — especialmente depois de viver relações abusivas e compreender o amor como construção coletiva, não prisão.

Sua primeira remuneração artística veio no Sesc Pulsar, recitando poesias para um público de crianças. Foi cem reais — “o dinheiro mais bonito da minha vida”. Depois disso, vieram projetos, oficinas, mesas de debate e um crescimento acelerado no cenário local. Aclor se tornou presença marcante no Enraizados, na Batalha de Morreba, no Sarau Poetas Compulsivos, na Roda da Via e no Festival Caleidoscópio. Em pouco tempo, virou referência para outros jovens que encontram nela uma mistura de vulnerabilidade, força, humor e fé.

Entre suas obras, duas músicas se tornaram marcos afetivos: “Vem Me Namorar”, escrita num momento de tristeza, transformada em convite à esperança; e “Romance de Primavera”, primeiro registro em estúdio, gravado no dia em que quase desistiu — e que acabou virando chave para sua entrada na produtora Nuvem. O clipe, feito em meio ao caos pessoal, é para ela símbolo da potência coletiva: “ver como eu tava feliz — sentir a felicidade me assistindo — é esquisito e bom”.

Apesar das conquistas, Aclor vive o dilema comum a artistas periféricos: equilibrar arte e trabalho formal, resistir ao desânimo, não se afastar daquilo que a salvou. Ela pensa em desistir “todo dia”, mas sempre volta — seja por uma foto na galeria, uma lembrança boa, um conselho de amigo ou um chamado do quilombo Enraizados. E segue construindo: dois EPs estão em processo, com visão estética própria, buscando que cada faixa faça sentido enquanto história e sentimento.

"Eu diria que eu sou ‘a cor’ mesmo." "Eu mostro que não é assim e que a arte cura." "Acho que eu não me descobri artista, eu me aceitei artista." "O hip-hop é um mar inteiro: se você mergulha e sai nadando, encontra coisa boa e se transforma." "O hip-hop é político pra caralho — é vida." "Amar é muito político." "Eu prefiro fazer o ‘uou’, fazer a faculdade, terminar os estudos e ainda ser artista." "Meus ‘psicólogos’ são os mortos: pretos-velhos, caboclos, velhos." "A felicidade tá no movimento." "O hip-hop, se fosse pessoa, seria um erê."

O hip-hop, se fosse pessoa, seria um erê.

Fora da criação artística, Aclor se envolve em projetos culturais e educativos, participa de debates universitários e sonha com um futuro simples e sólido: uma casa com quintal, uma janela grande, uma prateleira cheia de CDs e a chance de viver de arte sem abrir mão de si. Umbandista, encontra nas entidades a força para manter a saúde mental e seguir nadando — sem voltar ao fundo do poço que já conheceu.

Para ela, o hip-hop é um erê: comunicativo, alegre, transformador, mas sério quando precisa. E é esse hip-hop que deseja deixar como herança em Nova Iguaçu — um hip-hop de respeito, acessível, amado e presente nas escolas, nas famílias e nas ruas. Entre as referências que moldaram sua caminhada, cita Lisa Castro, Dudu de Morro Agudo, Átomo, Samuca Azevedo e Dorgo — nomes que compõem sua rede de afeto, aprendizado e possibilidade.

Hoje, mesmo com pouco tempo de caminhada, Aclor já é parte fundamental da cena de Nova Iguaçu. Sua importância está menos no número de discos e mais na intensidade com que vive cada processo: artista que transforma dor em canto, solidão em poesia, movimento em cura. Aclor é a cor — e, no mapa do hip-hop da cidade, seu traço é luminoso, vivo e permanente.