CONVERSA COM DUDU DE MORRO AGUDO
Gabrielle Braga – Qual nome você quer que a gente use aqui hoje com você e como você gostaria de ser apresentado?
Dudu de Morro Agudo – Dudu de Morro Agudo. Então, eu queria ser apresentado, para as pessoas que não me conhecem, como rapper, né? Que é o que me trouxe até aqui. Mas também gosto muito de ser apresentado como arte-educador e como produtor cultural, que é o que eu mais venho fazendo durante a minha trajetória dentro do hip-hop e é o que deu origem ao Enraizados e tudo isso, né?
Você nasceu em Nova Iguaçu, está aqui desde sempre?
Nasci em Nova Iguaçu, estou com 46 anos de idade. Desde que nasci, morei em três casas diferentes, sendo que duas casas são no mesmo quintal, coisa de 100 metros da primeira casa que morei. E, por algum motivo, eu gosto não só de Nova Iguaçu, eu gosto mesmo é de Morro Agudo, tá ligado? Eu me amarro em Morro Agudo.
Desde muito novo, eu sempre ouvia dizer que as pessoas bem-sucedidas iam embora daqui, mas eu sabia que ia ficar por aqui, tá ligado? Então, o ideal seria tentar mudar um pouco a perspectiva das pessoas sobre o território. Moro aqui há 46 anos e há 25 anos estou tentando fazer as pessoas enxergarem o Morro Agudo melhor.
E a sua comunidade, ela influencia na sua arte? Como?
Minha comunidade influencia a minha arte porque o meu rap narra o cotidiano. Eu sou cronista, na verdade. Depois de muito tempo, fui comparar minha arte com a dos meus amigos: o Átomo, por exemplo, é poeta mesmo, valoriza muito a poesia; outros são cantores. No meu caso, eu sou escritor, narro meu dia-a-dia e utilizo o rap como plataforma para fazer minhas ideias fluírem. Minha comunidade tem um papel fundamental nisso: meu cotidiano em Morro Agudo está em quase todas as músicas.
O que mais te orgulha na sua trajetória?
O que mais me orgulha é o Enraizados. O mais louco é que o Enraizados é uma produção coletiva. Em determinado momento, com 18 anos de idade, tive a ideia de criar isso. Eu não sabia que ia chegar onde chegamos, mas sabia que o hip-hop podia ajudar muita gente. Não digo financeiramente, mas ajudando a refletir sobre a nossa realidade.
É o processo de emancipação que o hip-hop traz naturalmente. O Enraizados inicia nesse processo de fazer as pessoas entenderem quem elas são, se indignarem e correrem atrás das suas paradas. Tenho muito orgulho do que se tornou e mais ainda de estar desde a fundação.
Minha vida inteira não foi dentro do Enraizados, eu criei com 19, 20 anos. A data da fundação é 31 de janeiro de 1999. Minha filha nasceu 31 de janeiro de 2000. Então, ela e toda essa molecada já nasceram em um mundo com Enraizados, diferente de mim.
Qual foi o seu primeiro contato com o hip hop?
Nem foi com o hip-hop, foi com o rap. Fui numa excursão pra Lambari, em Minas Gerais, e lá um menino me deu uma fita cassete de um grupo de Ribeirão Preto, chamado Consciência X Atual. Fiquei apaixonado porque eram moleques falando gírias, xingando o sistema.
Voltei de Minas Gerais ouvindo aquilo sem parar. Mostrei para o Luciano, que considero irmão, e a gente mergulhou no hip-hop: descobrimos Gog, Taíde, Gabriel o Pensador, até que chegamos nos Racionais MCs. Aí falei: “mano, é isso que eu quero fazer da minha vida”.
O problema era a timidez. Eu era um rapper de casa, sem coragem de palco. Achei que nunca faria show, mas sabia que queria viver dentro da cultura hip-hop. Quando ouvi aquela fita, não imaginava que 25 anos depois minha profissão seria hip-hop.
Quais elementos do hip hop você pratica ou já praticou?
Comecei com o rap. Rap pra mim é a grande parada. Mas tentei o break: cheguei a empurrar os móveis de casa pra rodar de costas, derrubei rádio, televisão, me machuquei e percebi que não era pra mim.
O grafite também não deu: sou daltônico. Fiz um desenho do Enraizados, levei pro FML e ele zoou, disse que parecia um “sutiã rei”. Aí desisti.
Hoje estou me arriscando como DJ. Temos equipamento no Enraizados e quero aprender. Mas até agora foi o rap que me aguentou. E tem o quinto elemento, o conhecimento. É nele que atuo como arte-educador e pesquisador.
Você lembra a primeira vez que recebeu dinheiro com algo relacionado ao hip-hop?
Não lembro. Lembro das pessoas que eu paguei. O primeiro que paguei foi o Léo da XIII, cinco reais, há uns 20 anos. Meu primeiro show foi em Barra do Piraí, num baile funk, chamado pelo Wilson Neném. Eu tremia no palco, mas foi marcante porque enfrentei o medo. Dinheiro mesmo não lembro, mas já ganhei muito com rap, inclusive construí parte da minha casa com dinheiro de shows.
Mas em qual ano foi seu primeiro show?
2000, alguma coisinha.
Em algum momento você já se afastou do hip-hop?
Nunca.
Nunca pensou em desistir?
Penso em desistir três vezes por dia. Mas quando olho pra trás, já vivi mais tempo dentro do hip-hop do que fora dele. Voltar seria mais trabalhoso. Então, sigo em frente.
O hip-hop mudou a sua percepção de vida?
Totalmente. A primeira coisa foi a questão racial. Eu me via como alguém menor, mas o hip-hop mostrou meu valor, o valor da população preta, principalmente na resistência. Só de estarmos vivos já é uma vitória.
O hip-hop é entretenimento, mas também é luta e resistência. Ele me deu motivo pra viver, paciência, respeito. Hoje sinto falta do respeito que existia, mas acredito que meu papel é entregar pra nova geração uma amostra do hip-hop que me formou.
Quais pessoas, grupos ou coletivos marcaram a sua caminhada?
Como é a cartografia de Nova Iguaçu, tenho que trazer personagens daqui, mas dois caras de fora foram muito importantes: Preto Ghóez, meu mentor, e Lamartine, do Maranhão, do grupo Clã Nordestino. Eles me ensinaram que o hip-hop também é político, que é preciso dialogar com o poder público e pensar política pública pra juventude.
No Rio, teve o Wilson Neném, de Barra do Piraí. O Fiel e o K2, que caminharam comigo no Enraizados. Em Morro Agudo, o Átomo e a Lisa, que estão até hoje no hip-hop. O Kal e o grupo Fator Baixada, um dos mais antigos daqui. E o Genaro, que tinha um espaço de hip-hop no MAB: difícil de lidar, mas importante. Eu passava de ônibus, via escrito “hip-hop” na porta e sentia que precisava entrar. Essa geração que veio antes me ensinou muito, às vezes sem palavras, só pelo comportamento.
Qual foi o momento mais marcante na sua trajetória no hip-hop até aqui?
A viagem pros Estados Unidos com a molecada. Não existe campeonato mundial nem Rock in Rio que se compare. Levar eles pra uma conferência numa universidade de elite, falando de Morro Agudo e lançando livro, foi surreal.
Eles fizeram só seis meses de inglês, daquele jeito, mas chegaram lá falando. Voltaram transformados. Pra mim, foi o maior feito coletivo do Enraizados. Desbloqueou um sonho: agora, a responsabilidade deles é manter essa chama acesa pra outros.
Você acha que existe respeito com o hip-hop em Nova Iguaçu?
Algumas pessoas respeitam porque vivem o hip-hop, fazem música, eventos. Mas como movimento organizado, não. Vejo 500 jovens numa batalha e enxergo potência. Mas, se não nos organizarmos politicamente, o poder público não respeita.
Não existe política pública de hip-hop na cidade. Falam de artesanato, música, audiovisual, mas nunca hip-hop. E quando fazemos rodas, muitas vezes somos reprimidos pela polícia. A gente precisa ocupar espaços, por mais chato que seja, porque senão vamos continuar invisíveis, fora até do underground.
Temos bons exemplos, como a Batalha de Morreba, que conseguiu impor regras contra racismo, homofobia e consumo de drogas. Isso elevou o nível das rimas e fez o evento ser respeitado. Mas já vi rodas que eram mais espaço de droga do que de rap, e isso prejudica a imagem. Precisamos mostrar que o hip-hop é potente e diverso.
O hip-hop é político então?
Completamente. Eu vejo o hip-hop como grupo político. Quem está dentro quer um mundo mais justo, luta contra o racismo e pelas minorias. É luta por uma nova hegemonia.
Criamos narrativas contra-hegemônicas: músicas, fotos, pesquisas acadêmicas que desafiam a ideia de que Morro Agudo é só violência ou que Nova Iguaçu é cidade dormitório. Isso é política.
O Enraizados também é político. A gente quer outro modelo de sociedade. Só existem duas formas de chegar nisso: política ou revolução. Mas revolução é sangue, é arma, e não conheço quem tenha disposição real. Então vamos pela política, que é difícil, mas possível.
Durante sua vivência em Nova Iguaçu, você já sofreu violência ou repressão praticando hip-hop?
Sim, mas mais psicológica e institucional do que física. Muitas vezes não permitiam que fizéssemos eventos, ou a polícia chegava pra reprimir. Vi 40 jovens sendo presos em ônibus depois de uma roda. Isso marcava.
Fora de Nova Iguaçu também era direto: enquadro da polícia, olhares de preconceito na escola ou no trabalho. A violência psicológica às vezes dói mais que a física, porque vai corroendo por dentro.
Como é ser artista, produtor, educador e militante em Nova Iguaçu?
É paradoxal: bom e frustrante ao mesmo tempo. Alguns dizem que, se o Enraizados fosse na Lapa, teria mais visibilidade. Mas perderia o sentido: o Enraizados só faz sentido em Morro Agudo.
Frustra ver tanta potência aqui sem valorização. Pra realizar qualquer atividade na Baixada, o esforço é três vezes maior que no Rio. A imprensa só se interessa pela violência, não pela arte.
O Festival Caleidoscópio é exemplo: formou juventude, produziu cultura, mas quase não saiu na mídia. Uma semana depois, quando houve um assassinato no bairro, recebi a notícia de todos os lados. Isso revolta: a violência tem mais valor midiático que a produção cultural. Ainda assim, seguimos resistindo, acreditando que dá pra mudar.
Qual o papel da arte nessa transformação?
A arte muda a gente, e a gente muda o mundo. Não acho que a arte tenha obrigação de ser formativa, mas ela provoca reflexão. Produzir arte é refletir sobre a vida, sobre o território, e isso já transforma.
O mais potente é quando a arte não dá resposta, mas questiona. Um grafite de uma mulher com olho roxo pode fazer pensar sem uma palavra escrita. Uma linha de rap sobre violência pode abrir reflexão. A arte tem papel central na resistência e na formação de consciência.
Se o hip-hop fosse uma pessoa, como você descreveria?
Meu irmão mais velho. Não dá resposta pronta, mas mostra o caminho. Me apresenta pessoas, tem um acervo enorme de conhecimento e quer que todos cresçam junto com ele. Eu vejo um negão fortão, bonito, seguro de si, que tenta puxar os outros pra se tornarem grandes também.
Como foi sua experiência na escola?
Ruim. Eu gostava de estudar, mas sofri violências de todo tipo. O hip-hop me ensinou a me defender. Eu descia a porrada em quem me zoava, como a Sueli Carneiro disse um dia: “bati bem e não tenho vergonha de dizer”. Era respeitado por isso, mas também fui de melhor aluno a mais indisciplinado.
O lugar onde mais senti racismo foi na escola. Professores que deveriam proteger, ignoravam. A escola foi traumática, mas me preparou pro mundo, porque é o microcosmo da sociedade.
Saí com a certeza de nunca mais voltar. Mas o mundo deu voltas: hoje sou chamado pra dar aula nas escolas com o RapLab. Entendi que o hip-hop, quando entra na escola, não pode ser só entretenimento, tem que ser ferramenta de educação.
Qual sua escolaridade?
Doutor. Fiz graduação em Processamento de Dados, depois em Análise de Sistemas, em Sociologia, mestrado e doutorado em Educação. Fora dezenas de cursos, de produção cultural a oratória. Mas aprendi muito também em ONGs e oficinas práticas, como audiovisual com amigos daqui.
Se pudesse categorizar as maiores fontes dos seus saberes — rua, escola, internet, família — qual a ordem?
Família em primeiro, rua em segundo, escola em terceiro, internet em quarto. Minha família me preparou pra rua, a rua me preparou pro mundo. Na rua você aprende códigos que não se aprendem em outro lugar.
Conta mais sobre o RapLab. Como é estar com os jovens nesse projeto?
No início, eu me via como oficineiro, não professor. Mas fui entendendo a potência da troca. Hoje, sento com os alunos de forma horizontal, provoco eles a darem respostas pra questões complexas. Eles trazem visões frescas que às vezes nós, adultos, não temos mais.
Já vi jovens do RapLab, como Dorgo e Baltar, que foram alunos e hoje dão oficinas sozinhos, até em lugares como Sesc e universidades. O RapLab virou ferramenta de emancipação.
Mas também é luta pela educação pública. Durante a pandemia, conheci alunos do Colégio Pedro II e vi como dedicação integral dos professores faz diferença. Defendo que todas as escolas deveriam ser assim. O problema não é dinheiro, é interesse político. Investir em educação gera consciência crítica, e isso assusta quem está no poder.
Com quem você mais aprendeu dentro do hip-hop?
Com o Preto Ghóez.
Qual a importância das amizades, das parcerias e dos coletivos na sua trajetória?
São eles que fazem a roda girar. Quando não tem dinheiro, os amigos são o recurso. No começo do Festival Caleidoscópio, ninguém recebia nada. Anos depois, no décimo, conseguimos pagar todo mundo porque muitos investiram seu suor lá atrás.
Antigamente eram as posses, hoje são as rodas de rima que cumprem esse papel coletivo. Sem juventude, não há hip-hop. Além de ser cultura preta, é também cultura jovem. O hip-hop só existe de forma coletiva. Sozinho não dá.
E como você vê a saúde mental nesse meio? Você cuida disso?
Durante a adolescência, terapia era impensável, coisa de rico. A primeira vez que ouvi sobre isso foi com minha filha, que disse: “eu faço terapia hoje porque você não fez”. Isso me marcou. Fiz algumas sessões e vi a importância.
Hoje entendo melhor, mas não faço acompanhamento contínuo. Quero voltar, mas ainda estou organizando minha vida pra isso. Acho que todo mundo deveria fazer, mas não é acessível: ainda é caro. Por isso, como instituição, o Enraizados tenta buscar parcerias com psicólogos pra atender coletivamente.
Você tem religião?
Não tenho religião formal, mas politicamente digo que sou candomblecista. É uma escolha política. Tudo que é preto é perseguido, então, quanto mais espaço eu tiver, mais vou falar por quem é excluído.
Aprendi na sociedade que candomblé era “coisa do diabo”. O hip-hop me ajudou a ressignificar. Não me vejo dedicando minha vida a um espaço religioso, mas respeito muito.
Também dialogo com evangélicos, porque moro em Morro Agudo, onde a maioria é evangélica e vota na extrema-direita. Posso ir embora (o que não quero) ou dialogar. Então, até minha religiosidade é política.
Acredito em energia: fazer o bem gera energia boa. A caridade, pra mim, não é só dar dinheiro, é ouvir, abraçar, estar junto. Pequenos gestos podem salvar vidas.
Qual projeto mais representa a sua trajetória até aqui?
Minha música “Reflexões Que Ainda Me Tiram o Sono”. É a mais madura, a que mais me emocionou, a que mais trabalho deu.
E sobre o futuro, quais são os seus sonhos?
Sonho é coisa grande. Tenho três principais:
- Que o Enraizados funcione como uma cooperativa de cultura, com tudo organizado, cada um sabendo captar recurso e se pagando.
- Prestar concurso e ser professor de relações étnico-raciais no Instituto de Educação de Nova Iguaçu.
- Dar aulas nos Estados Unidos, na Duke University, algo que já estava encaminhado, mas depende do contexto político lá.
Se pudesse deixar uma mensagem para a juventude daqui a 20 anos, qual seria?
Primeiro: acredite no seu potencial, tem que fazer sentido pra você.
Segundo: ande com gente parecida, mas não idêntica. Discordar faz crescer.
Terceiro: estude muito, de todas as formas — escola, encontros, experiências. O conhecimento é a única coisa que ninguém tira de você.
E nunca caminhe sozinho. O mundo não é fácil, você vai cair e precisa de quem levante, assim como terá que levantar outros. A luta é coletiva.
Que tipo de hip-hop você gostaria de deixar como herança?
Um hip-hop com 30% da essência dos anos 90. Musicalmente, hoje se produz muita coisa boa, mas falta compromisso comunitário e luta contra o sistema.
Na minha época, ninguém entrava pensando em ficar rico. Hoje, muitos querem um milhão no Spotify em 15 minutos. Prefiro um hip-hop mais preto, mais Djonga, mais BK, do que nomes comerciais como Felipe Ret. E internacionalmente, menos Drake, mais Kendrick Lamar.
Quais são as cinco pessoas mais importantes para o hip-hop de Nova Iguaçu?
A tríade: Genaro, Mad e Luke — os precursores. O Mad ensinou os outros a dançar, na época em que não havia WhatsApp nem Uber, só mato em Austin e eles treinando.
Depois, o Átomo, pelo repertório artístico, e a Lisa, como referência de mulher preta na cidade. Essas cinco figuras são fundamentais.
Quais lugares, eventos ou experiências foram essenciais para o hip-hop de Nova Iguaçu?
Antes do Enraizados, a Praça dos Direitos Humanos, que acolheu muitos eventos. A pista de skate da cidade, a primeira da América Latina, que deveríamos ocupar mais. A Praça de Morro Agudo, onde o Enraizados teve sede. E, claro, o próprio Enraizados, que se tornou um polo central.
Se você fosse montar um museu do hip-hop em Nova Iguaçu, o que não poderia faltar?
Queria que fosse um museu vivo, sempre atualizado. Que tivesse entrevistas como esta em áudio e texto, muitas imagens antigas e atuais.
Mostraria como nos vestíamos em cada década, teria peças de marcas históricas como FUBU, XXL e Conduta.
Seria tecnológico, mas também representaria as mudanças culturais. Porque o hip-hop é dinâmico, mistura com samba, funk, pagode, sem perder sua essência de cultura preta e periférica.













