BALTAR
Baltar nasceu em Paracambi, mas se reconhece, antes de tudo, como cria de Morro Agudo, em Nova Iguaçu. Veio ao mundo em meio a aperto financeiro e tensão familiar: o parto que parecia normal virou cirurgia de emergência, a família teve que correr atrás de dinheiro emprestado e ele chegou “roxinho”, como lembra a mãe. Sobreviveu – e essa experiência de luta desde o nascimento parece antecipar a relação que teria com a vida, com a arte e com o hip hop.
Criado em família evangélica, com avós missionários que circulavam por várias igrejas da Baixada, Baltar construiu muito cedo uma noção de comunidade. Foi músico na igreja – tocava bateria, arriscava voz, pegava no violão – e, nesse vai e vem entre templos e bairros, formou rodas de amizade que extrapolavam muros e denominações. Um episódio marca essa teia de afetos: quando teve dengue hemorrágica e quase morreu, gente de três igrejas diferentes apareceu no hospital para visitá-lo no mesmo dia. Aniversário, para ele, sempre foi sinônimo de juntar a galera da igreja com os amigos da rua. Esse modo de aproximar mundos distintos, mais tarde, se tornaria base da sua atuação no hip hop.
Seu primeiro contato com elementos da cultura veio antes mesmo de saber o nome “hip hop”. Ainda criança, ouvia em casa os CDs que a família consumia: hip hop gringo, Gabriel o Pensador, DJ Alpiste, Adriano Gospel Funk, e, claro, Racionais ecoando nos bares do bairro. As fitas e discos que moldaram sua escuta vinham, muitas vezes, das banquinhas de pirataria do Centro de Nova Iguaçu, com seus CDs e DVDs (como os Videotrex) que abasteciam a juventude periférica de música, filmes e jogos. Ao mesmo tempo, o universo religioso tentava impor limites: quando a mãe trouxe um Game Boy da Europa, o presente foi proibido depois que alguém disse que Pokémon era “do diabo”. Baltar passou a jogar escondido, caçando o cartucho que a mãe escondia – uma metáfora perfeita dessa tensão entre controle e desejo de mundo.
O rap entrou com mais força por volta dos oito, nove anos, através de Riago, filho do pastor Roberto. Foi ele quem apresentou Pregador Luo, Apocalipse 16, Provérbio X, SNJ, e levou o menino ao seu primeiro show de rap: MC Apolo, em Morro Agudo, em um evento de hip hop do qual Baltar saiu com um CD autografado que guarda até hoje. Aos poucos, o rap gospel foi abrindo a porta para outros nomes: Jamaica (Charles MC, de Brasília), Face da Morte, Sandrão, RZO, Facção Central. O hip hop ia se formando como trilha sonora e também como linguagem.
Na adolescência, tentou dançar break com amigos na sala de casa, imitando Chris Brown e os dançarinos dos DVDs piratas. Chegou a ter aula com Ramon e Quinho, b-boys que marcaram sua geração. Flertou com todos os elementos: break, graffiti, DJ, MC. Um tio, que mantinha CDs de rap guardados mesmo depois de se tornar “mais crente”, era influências constante – Baltar ouvia escondido no carro. A avó, que não gostava de rap, às vezes achava seus CDs e, em vez de jogar fora, escrevia “Gugu Rap” com caneta na superfície. Pequenos gestos que, de algum modo, preservavam aquela música.
Em 2012, o Instituto Enraizados se torna eixo central da sua trajetória. Ele já tinha ouvido falar do espaço antes, tentou fazer aula de break, mas foi barrado ao ouvir que só poderia participar se tivesse Bolsa Família – benefício que a família não recebia por opção da mãe. Anos depois, se reaproxima do Enraizados pela Banca de Freestyle e por eventos como o Musicação, na Via Light. Ali encontra uma ideia de hip hop organizado, com diretrizes, respeito e senso de movimento. Em paralelo, vai ganhando responsabilidade na cena: apresenta o Musicação, participa de batalhas, circula por rodas em Mesquita, Austin, Zumbi, Morro Agudo.
É nesse momento que a dimensão política começa a aparecer de forma mais explícita no seu trabalho. Incomodado com falas racistas e homofóbicas em algumas batalhas, dialoga com DMT para criar regras claras: não teria mais espaço para preconceito nos eventos que organizavam. Essa postura, que depois seria incorporada também na Batalha de Morreba, ajudou a formar uma geração de MCs que se posicionam contra discursos discriminatórios e fazem disso matéria de rima e prática.
Como artista, Baltar se consolida principalmente como beatmaker e MC, além de produtor cultural e designer gráfico. Trabalha com o Instituto Enraizados, com a Batalha de Morreba, com a Batalha da Democracia, com o Sarau Poetas Compulsivos e outros eventos da cena. Desde cerca de 2013/2014, passa a receber pequenos valores por shows e trabalhos – passagem paga aqui, um cachê simbólico ali. Por muito tempo, o dinheiro não era suficiente para viver, e ele precisava de outros trabalhos para sustentar a vida e, ao mesmo tempo, bancar o próprio hip hop. Com o tempo, porém, consegue tornar a cultura sua principal fonte de renda: hoje vive de hip hop e de design, quase sempre ligado a movimentos culturais.
Em 2015, grava seu segundo som em um estúdio improvisado com Mihal, de Belo Horizonte, do grupo Rua 2 e do Cigavante, ao lado de João Bits e PK – parcerias que o incentivam a não desistir. Em 2018, começa a atuar como oficineiro do RapLab, dando oficinas de rap em escolas, de beatmaker no Enraizados e no Sesc Tijuca, e reforço de design. A sala de aula, que antes era um lugar de dificuldade e indisciplina, vira espaço de criação coletiva.



















