ADRIELLE
Adrielly Vieira, conhecida simplesmente como Adrielly, é cantora, rapper, atriz, pesquisadora e educadora. Neta de Dona Judite, sobrinha de Alzira e filha de Adriana, ela costuma se apresentar a partir da família e do território: é de Austin — “not Texas”, como gosta de brincar — na Baixada Fluminense. Nascida em 1994, no Hospital Bom Pastor, em Queimados, cresceu entre Austin, Carlos Sampaio, Santa Rita, Ambaí e Morro Agudo, sempre atravessada pelo barulho do trem, pelo quintal de casa e pelo terreiro, imagens que depois se tornariam marcas da sua obra.
A história de Adrielly começa no chão de terra do quintal da avó, Dona Judite, hoje com 80 anos, herdeira de uma casa construída pelo pai, filho de um homem congolês que chegou ao Brasil ainda no período da escravização. É nesse espaço que ela aprende a plantar, cuidar da terra, soltar pipa, jogar bolinha de gude e observar os trens que passam perto da antiga estação de Carlos Sampaio. O som das composições futuras já estava ali, antes mesmo de qualquer microfone: o barulho do trem, o ritmo do tambor, as rezas do axé e as vozes da família.
A musicalidade vem de casa. O tio Josimar, pichador, ouvia Racionais, MV Bill, funk e Furacão 2000. O pai, Seu Alci, escutava Marvin Gaye — nome que ela só descobriria depois — enquanto a avó era devota de Jovelina. Entre cerca de 2005 e os anos seguintes, por volta dos 11 anos, o ouvido de Adrielly se forma nesse caldeirão: rap, funk, samba, funk melody, cânticos de matriz africana e tambor de terreiro. Tudo isso, mais tarde, vira matéria-prima das suas músicas.
Na escola, sempre em unidades públicas de Austin, Adrielly foi a aluna “genial” cercada por contradições. Única menina de trança nagô na sétima e oitava série, viveu situações de racismo, mas mantinha o uniforme impecável por exigência da mãe e da avó. Ia bem nos estudos, nos esportes e na dança. Representante de turma, terminava o ano antes dos demais colegas porque já tinha passado em todas as provas. O pai, grande referência afetiva, é quem a leva para o esporte: futebol, karatê, capoeira. Antes de se assumir artista, ela chegou a sonhar em ser atleta.
A formação espiritual também nasce no quintal. Cerca de 95% da sua família é de religiões de matriz africana; os 5% restantes são evangélicos, entre eles a mãe e um tio. Na adolescência, Adrielly frequenta a igreja, muito pela presença de jovens negros nesse espaço, mas nunca deixa de viver o axé: quando a mãe saía para trabalhar, ela e o irmão ficavam no terreiro em frente de casa, sob os cuidados da tia Maria, entre ogãs, atabaques, ibejis e rezas. Com o tempo, se aproxima ainda mais da tradição congo-angola da avó e passa a estudar o Vodum, religião do Benin, pesquisando Congo, África e a manipulação histórica das religiões afro-brasileiras. Essa investigação se torna também pesquisa artística: ancestralidade, cânticos, rezas e tambor atravessam suas composições.
O ponto de virada para a arte acontece em 2014, quando Adrielly deixa o trabalho formal para cursar a Escola Livre de Cinema em Austin. Entre 2014 e 2016, vive um período que ela descreve como especialmente rico para a cultura em Austin: projetos como Bairro Escola e Escola Aberta, a QDN de Austin, o cineclube do Mate com Angu na Rua do Chuchu, batalhas de poesia, passinho e hip-hop se entrecruzam. É também quando ela começa a fazer “arte de vagão”: cantar e recitar poesia no trem, passando o chapéu, primeiro gesto de profissionalização. Em 2015, entende que aquilo é trabalho. Em 2016, aprofunda essa trajetória com o projeto “No Flow”, em parceria com o Canal Plá, uma websérie que registra rodas de poesia e batalhas de rima em Nova Iguaçu, Caxias, Complexo do Alemão, Niterói e Bisquita. Parte do material chega à TV, e a artista se vê, pela primeira vez, como personagem e narradora dessa história.
É nesse período que ela passa a se assumir como artista do hip-hop. O marco simbólico não é um prêmio ou um grande show, mas uma cena de rua: crianças do bairro cantando suas músicas. A partir daí, o trem, o quintal e o terreiro se consolidam como elementos centrais. Suas faixas têm interlúdios com barulho de trem; seus textos e peças de teatro falam de trens e estações; o cotidiano da Baixada vira paisagem e tema. Ao mesmo tempo, ela se forma em Licenciatura em Teatro e passa a atuar como professora, atriz, MC de improviso e multiartista.
Entre os projetos que mais representam sua trajetória, Adrielly cita o próprio “No Flow”, por permitir que se reconhecesse nas imagens e narrativas sobre rodas de poesia e batalhas. No teatro, destaca a cena “Amor Preto”, em que fala da avó, da mãe e da tia, e leva essas mulheres ao teatro para se verem no palco. Na fotografia, o projeto “Camisas Ancestrais” registra sua família sorrindo e resulta numa exposição no Sesc Nova Iguaçu, em 2019 — primeira vez em que elas se veem em uma galeria. Em todos os casos, a família não é apenas tema, mas sujeito: é a partir dela que a artista organiza o mundo.
Sua trajetória também é marcada pela experiência de violência e resistência na Baixada. Uma noite, por volta de meia-noite e meia, ao voltar da faculdade, é abordada por uma viatura policial em Austin. Revistam sua mochila, pedem documentos. A abordagem, no próprio território, a revolta profundamente e reforça a dimensão política da sua arte. Influenciada por pensamentos como o de Nina Simone — “o artista tem que refletir o seu tempo” —, Adrielly assume o hip-hop como ferramenta de expressão de uma mulher preta, periférica, da Baixada, LGBTQIA+, atravessada por racismo e desigualdade, mas também por saberes de rua, de escola, de internet e, sobretudo, de família.



















